Banco pode bloquear conta por dívida?

Advogado em escritório em São Paulo analisando documentos bancários e extratos para defesa de desbloqueio de conta.

De maneira geral, não. O banco não possui autoridade para “congelar” ou bloquear o acesso de um cliente à sua conta apenas por existir uma dívida pendente, salvo em situações muito específicas de suspeita de fraude ou por ordem judicial. O bloqueio administrativo unilateral por dívida costuma ser considerado uma prática abusiva pelo Judiciário.

Para entender melhor, precisamos diferenciar o bloqueio da retenção. O bloqueio impede que você utilize qualquer centavo da conta. Já a retenção ocorre quando o banco utiliza o saldo que entra (como o salário) para abater automaticamente uma dívida, como o limite do cheque especial ou um empréstimo atrasado.

Embora existam cláusulas contratuais que prevejam essa compensação, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) possui um entendimento consolidado de que a instituição financeira não pode reter o salário do correntista para satisfazer débitos, pois isso fere a dignidade da pessoa humana e a natureza alimentar da verba. Em grandes centros como São Paulo, onde os contratos bancários são complexos, essa prática é comum, mas frequentemente contestada judicialmente.

Bloqueio Judicial vs. Retenção de Saldo: Qual a diferença?

O bloqueio judicial é determinado por um juiz através do sistema SisbaJud, após um processo onde o devedor teve chance de defesa. Já a retenção de saldo é uma medida administrativa interna do banco, feita sem autorização direta do tribunal, baseada em cláusulas contratuais de cobrança.

Quando o bloqueio é judicial, o banco é apenas o cumpridor de uma ordem. O magistrado ordena que os valores nas contas vinculadas ao seu CPF sejam “penhorados” para garantir o pagamento de um credor. Nesses casos, a conta não fica bloqueada para sempre, mas sim os valores específicos encontrados no momento da consulta.

Por outro lado, a retenção administrativa é aquela “surpresa” matinal: o dinheiro caiu na conta e sumiu no minuto seguinte para pagar uma parcela de empréstimo. Se isso acontecer com seu salário ou verba de sobrevivência, há uma alta probabilidade de essa conduta ser ilegal, permitindo que o consumidor busque a restituição imediata.

Quais valores são impenhoráveis (que não podem ser mexidos)?

A lei brasileira protege certos valores que são considerados essenciais para a sobrevivência do indivíduo, tornando-os impenhoráveis. Estão protegidos os salários, proventos de aposentadoria, pensões e os valores depositados em caderneta de poupança até o limite de 40 salários-mínimos.

Essa proteção está prevista no Código de Processo Civil e serve como uma “blindagem” para o mínimo existencial. Se você possui uma reserva de emergência de até 40 salários-mínimos (mesmo que não esteja tecnicamente em uma conta poupança, conforme interpretações recentes dos tribunais), esse valor não deveria ser bloqueado por dívidas comuns.

Na prática da capital paulista e região metropolitana, vemos muitos casos onde o bloqueio ocorre “por varredura” no sistema. O juiz ordena o bloqueio e o sistema trava o que encontrar. Cabe ao titular da conta, com auxílio jurídico, comprovar que aquele valor é originário de salário ou que está dentro do limite de impenhorabilidade para pedir o desbloqueio urgente.

O banco pode bloquear a conta por CPF irregular?

Sim, mas este é um bloqueio de natureza cadastral, não necessariamente por dívida direta. Se o CPF estiver cancelado ou suspenso junto à Receita Federal, as normas do Banco Central exigem que a conta seja restringida para movimentação até a regularização do documento.

Muitas vezes, o CPF fica irregular por pendências na Declaração de Imposto de Renda. Nesses casos, o banco não “toma” o dinheiro, mas impede saques e transferências até que você comprove que está em dia com o fisco. É uma medida de conformidade (compliance) bancária e não uma forma de cobrança de dívida de cartão de crédito, por exemplo.

O que fazer se minha conta for bloqueada indevidamente?

O primeiro passo é identificar a origem do bloqueio consultando o gerente ou o extrato detalhado para verificar se há um número de processo judicial associado. Caso o bloqueio seja administrativo por iniciativa do banco sobre verba salarial, você deve protocolar uma reclamação formal e buscar orientação jurídica para uma medida liminar de liberação.

Se o caso for um bloqueio judicial em São Paulo, por exemplo, o tempo é um fator crucial. Existe um prazo curto para apresentar a defesa (impugnação à penhora) demonstrando que o dinheiro travado é impenhorável (salário ou poupança).

Aqui estão os passos recomendados:

  1. Obtenha o extrato: Documente a entrada do dinheiro e a natureza da conta.
  2. Verifique a origem: Se for judicial, anote o número do processo.
  3. Não aceite acordos abusivos: Em momentos de desespero, o banco pode oferecer um parcelamento desvantajoso para liberar a conta. Analise com cautela.
  4. Procure ajuda profissional: Cada caso possui nuances que podem acelerar ou travar a liberação do seu sustento.

Mini-FAQ: Dúvidas Rápidas

O banco pode descontar dívida de conta salário? Não. O salário é impenhorável e o banco não pode reter verbas alimentares para quitar débitos de outras naturezas, como cartões de crédito ou cheque especial, sem autorização específica ou ordem judicial, sob risco de sofrer condenação por danos morais.

Quanto tempo demora para desbloquear uma conta judicialmente? O prazo varia conforme a agilidade do tribunal, mas em casos de verba salarial, o pedido é feito em caráter de urgência (liminar). Após a decisão favorável do juiz, o sistema SisbaJud leva geralmente de 24 a 48 horas úteis para processar a liberação.

Mesmo com dívida no cartão, posso abrir conta em outro banco? Sim. A existência de dívidas ou restrições nos órgãos de proteção ao crédito (SPC/Serasa) não impede legalmente a abertura de uma conta corrente ou digital, embora o banco tenha a liberdade de negar a concessão de crédito (limites e cartões).

O bloqueio de conta atinge o Pix? Sim. Se a conta está bloqueada judicialmente, todas as funções de saída, incluindo o Pix, ficam desativadas. O valor que você receber via Pix após a ordem de bloqueio também pode ficar retido se o teto determinado pelo juiz ainda não tiver sido atingido.

Conclusão

Enfrentar um bloqueio de conta é uma situação de alta vulnerabilidade. Como vimos, embora as instituições financeiras possuam mecanismos de cobrança, eles encontram limites severos na legislação brasileira, especialmente no que tange à proteção do seu salário e do seu sustento.

Seja por uma retenção administrativa abusiva ou por um bloqueio judicial que atingiu valores impenhoráveis, a rapidez na reação é o que define a preservação da sua saúde financeira. Lembre-se que as decisões dos tribunais em São Paulo e no Brasil têm sido cada vez mais rigorosas contra abusos bancários.

Cada situação é única e exige uma análise documental cuidadosa para identificar a melhor estratégia de defesa. Se você está passando por isso agora, não tome decisões precipitadas sob pressão.

Deseja analisar a legalidade do bloqueio em sua conta ou precisa de orientação sobre como proceder com uma retenção indevida? Nossa equipe está à disposição para avaliar seu caso de forma técnica e estratégica.

Priscila Casimiro Ribeiro Garcia

Advogada altamente qualificada, Pós Graduada em Execuções Cíveis pela OAB/SP. Especialista em Direito de Família, atuante na área há mais de 15 anos.

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